segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Poema da Independência

Por Oliveira Ribeiro Netto



O português veio de longe, de terras de além-mar,

e trouxe uma cruz de sangue nas velas cor de luar.

Ele era velho, mas tinha a alma forte,

e várias vezes afrontara a morte

nas incursões dos mouros pelo seu pais.

Tinha no sangue a nobreza dos cavaleiros d’EL Rei Don Luiz.

O acaso o trouxe num veleiro,


e ele viu que sob a proteção doirada do cruzeiro

uma cabocla vivia entre a folhagem,

livre como o vento ou como o jaguar selvagem

nas suas correrias pelo campo em fora,

coroada de penas de tucano cor de aurora,

os membros de bronze banhados de luz.

E ele via que a forca do seu arcabuz

era maior que a da flecha emplumada da aljava,

e pos nos punhos morenos algemas de escrava.

E a cabocla, ao toque do boré,

nas noites de luar não pode mais dançar a puracé,

e nem correr pelos bosques bravios,

nem investir contra a fúria dos rios

na piroga que ela governava.

O Branco dissera: Tu és minha escrava!

E o eco afirmara : escrava… escrava. . ..

Para o português eram os melhores frutos que colhia,

as pepitas de ouro que ela descobria,

toneladas sangrentas de pau-brasil,

diamantes de luz e safiras de anil.

Para ele a beleza, a força, a agilidade:

A velhice dominando a mocidade.

Mas com o tempo nos músculos de bronze cresceu a resistência,

quebraram-se as cadeiras, raiara a independência!

A índia era livre, as terras de norte a sul

eram dela! A Guanabara azul,

os lençóis verdes dos pampas,

os cafezais paulistas, as rampas

recheadas de ouro das serras mineiras,

as praias do norte eriçadas de palmeiras,

ondulações verdes de canaviais,

quilômetros e quilômetros de cúpulas verde-amarelas de ipês e seringais,

alvoradas vermelhas, tardes cheirando a flor,

tudo era dela! A Liberdade!

O seu primeiro anseio de nacionalidade,

a Liberdade, o seu primeiro amor!


( Antologia da Nova Poesia Brasileira J.G . de Araujo Jorge – 1a ed. 1948 )

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